conselho municipal de políticas culturais – relato número 1

Duque de Caxias, 29 de Março de 2018.

Em dezembro do ano passado a sociedade civil escolheu, na VI Conferência Municipal de Cultura, seus representantes para compor um novo Conselho Municipal de Políticas Culturais. Em fevereiro deste ano, o novo conselho toma posse, reunindo 11 representantes da sociedade civil e 11 representantes do poder público municipal. Estou ocupando a cadeira de produção cultural, numa dobradinha com a parceira com Clara de Deus.

Os conselhos municipais são espaços de participação popular visando implementação de políticas públicas para diversas áreas. Duque de Caxias possui diversos conselhos: do meio ambiente, da mulher, da educação, de saneamento e de cultura, entre outros, como o conselho da cidade, que visam articular a participação social com diferentes esferas do governo.

Duas reuniões deste novo conselho aconteceram.

Na primeira reunião houve eleição para a cadeira de vice presidente, que obrigatoriamente é um representante da sociedade civil. A presidenta do conselho é a secretária de cultura, Daniele Reis. A escolha da vice não correspondeu ao consenso de conversas anteriores entre os conselheiros das cadeiras da sociedade civil. Tínhamos pensado em um outro nome, mas na hora o que acabou acontecendo, com os 11 votos do poder público mais dois votos da sociedade civil, foi a eleição de Menaide Barros para o cargo de vice presidência do Conselho. Menaide representa a cadeira do artesanato da cidade. Nesta reunião também foi tirada uma comissão onde será elaborada uma proposta de regimento para o conselho. Edson, da cadeira do patrimônio, e Andreia, da cadeira da cultura afro, representam a sociedade civil na comissão.

Na segunda reunião foi feita a prestação de contas do Fundo Municipal de Cultura, ao longo dos anos, em várias gestões, por motivos diversos, o fundo não pode ser acessado pelos fazedores das culturas da cidade.  Pelo que parece, este conselho dará um importante passo do processo de implementação de políticas públicas de incentivo a cultura. Existe mais de R$300.000,00 na conta do fundo.

Mas, em tempos de golpes diários, o atual conselho só terá força com apoio, participação e pressão popular. As reuniões são abertas a qualquer um interessado em participar! Na composição do conselho são 11 cadeiras do governo e 11 da sociedade civil. Em caso de empate, é a secretaria quem decide.

Eu sei bem que todo esse universo político dá asco. Partidos, interesses, conflitos. Mas sei também que o pouco que temos, é fruto de muita luta. Pra nós, da Baixada, nada nunca foi fácil.

Para vocês terem uma ideia da importância desse apoio geral: As duas reuniões que já tivemos foram marcadas para às 15h num dia de semana. Uma reivindicação dos representantes da sociedade civil é que estas reuniões aconteçam a noite, pois todos temos os nossos corres pra botar o feijão na mesa. No debate, nenhuma empatia da parte dos representantes do governo.

Compreendendo o conselho como espaço formulador das políticas públicas, penso que meu papel como conselheiro é fazer o possível para ver editais municipais e leis de incentivo sendo criados para fomentar a criação e expressão da arte e cultura da cidade, de uma ponta a outra.

A próxima reunião será no final de Abril, nela será votado o regimento interno do Conselho de políticas culturais de Duque de Caxias.
Quem puder chegar junto, é muito importante!

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Hoje é dia de Nossa Senhora Aparecida.
Minha mãe era uma devota. Contam que quando eu era criança, ela me levou ao santuário e “me ofereceu” à Mãe Preta.

Saca quando nas missas pedem pra levantar carteiras de trabalho e chaves para abençoar e consagrar? Nessa hora minha mãe levanta uma criança! rsrsrs

Eu acho essa história engraçada, curiosa.
Não tenho a fé que minha mãe teve, mas tenho um certo carinho pela Aparecida e toda essa espiritualidade mariana… Hoje foi um dia especial para me reconectar com o mistério sagrado da vida. Foi dia de sentir saudade de uma mulher que mal conheci, mas que sinto ao meu lado por toda a vida.

Hoje a saudade bateu forte,
tudo que precisava hoje era seu apoio e um conselho…

Feliz dia das crianças,
porque ser adulto é uó.

obrigações morais

obrigações morais apavoram
a ideia de moral, por si, já é pavorosa

eu caguei pra moral
mandei os bons costumes à merda

obrigações morais corrompem o amar livre
amar é verbo
que se fez carne e habitou entre nós

obrigações morais enchem a vida
de um cristão mal informado

obrigações são correntes
obrigações são correntes
obrigações são correntes

de repente

estou com 35 anos e doenças causadas por estresse. logo eu, que nunca fiquei em filas sem necessidade. estou com 35 e me dei conta que to sozinho no mundo. sem pai, nem mãe, nem amores que durem pra sempre. minha jornada é mesmo solitária. é quase engraçado quando a gente se dá conta disso: no fundo estamos sós. com 35, pelo estilo de vida que levo, já cheguei ou passei da metade da minha presença nesse planeta. metade de uma vida. uma vida mediana, cabe dizer.

fragmentos escolhidos 4/4

Super Homem – a canção
Gilberto Gil

Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver

Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher

fragmentos escolhidos 3/4

O guardador de rebanhos – VIII

Fernando Pessoa
(Alberto Caeiro)

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à Terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
“Se é que as criou, do que duvido” –
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres”.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

………………………………………………………………..

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas pro ar<
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

……………………………………………………………

Quando eu morrer, filhinho,
Seha eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.
…………………………………………………………………………..

Esta é a história do meu Menino Jesus,
por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

08-03-1914